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Pierre Landolt, empreendedor institucional na Fazenda Tamanduá

Postado por Cécile Petitgand 13 de março de 2015 Deixe um comentário

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Suíço instalado no Brasil há mais de 30 anos, Pierre Landolt se apaixonou pelo sertão nordestino e fundou em 1977 a Fazenda Tamanduá no município de Santa Terezinha, Estado da Paraíba. Hoje todos os produtos da Fazenda são certificados orgânicos e biodinâmicos e comercializados no mercado brasileiro e internacional.

Neste artigo, eu argumento que Pierre Landolt representa um exemplo sintomático do que os pesquisadores da teoria institucionalista chamam de ¨empreendedor institucional¨, um ator propício à criação de novas instituições e à mudanças das regras do jogo existentes num certo ambiente.

O que é o empreendedorismo institucional?

O conceito de ¨empreendedorismo institucional¨foi introduzido na teoria das organizações pelo pesquisador americano Paul DiMaggio num artigo publicado em 1988*. A sua intenção era de sublinhar a prevalência do papel dos atores na criação de novas instituições – definidas aqui como regras, normas e crenças que determinam as condutas apropriadas e justas para os indivíduos.

O empreendedor institucional, portanto, é um indivíduo ou uma organização que tenta implementar novos arranjos institucionais utilizando os recursos do seu ambiente para criar novas instituições e transformar as existentes. Em outros termos, fala-se de um agente potencialmente transformador que tem poder e interesse em propiciar mudanças econômicas e socioambientais que podem afetar um numero considerável de pessoas.

Pierre Landolt, empreendedor institucional

Através da leitura de textos sobre a Fazenda Tamanduá e assistindo a vários vídeos do canal Youtube da mesma, reuni alguns elementos que permitem caracterizar o Pierre Landolt como sendo um tipo de empreendedor institucional no sertão paraibano:

– Na região do semi-árido, cujo clima é obviamente hostil à produção agro-pecuária, Pierre Landolt implementou um sistema de produção de alimentos totalmente pioneiro no Brasil. Não se usa nenhum agrotóxico ou conservante na produção das hortaliças, frutas e queijos da Fazenda. O empreendedor conseguiu também elaborar parcerias com outros agricultores da região para que adotem estas técnicas de produção sustentável e que seus produtos sejam também certificados pelo IBD (a maior certificadora de orgânicos no Brasil). A Fazenda Tamanduá compra os produtos destes pequenos produtores, dando-lhes assim uma garantia de venda para sua produção.

– De fato, as conexões internacionais do Pierre Landolt constituem um fator determinante do sucesso do modelo de negócio impulsionado pela Fazenda. Ator central de uma tela de relações juntando a Europa e o Brasil, o Suíço tem conseguido com mais facilidade que um empreendedor comum, garantir o escoamento de seus produtos e dos produtos de seus parceiros nos mercados internacionais. Por exemplo, as mangas biodinâmicas cultivadas na Fazenda são exportadas para a Europa, e a polpa das frutas é comercializada nos Estados Unidos. Em 2014, a produção da fruta representou 60% das receitas geradas na Fazenda.

– No sertão paraibano, a Fazenda Tamanduá também foi experimentando novos tipos de cultivo para enfrentar os problemas de seca persistentes na região. Em parceria com o instituto de pesquisa Embrapa, a fazenda plantou variedades de arroz vermelho melhoradas geneticamente para ser mais resistentes à falta de água. No entanto, esta experiência não cumpriu suas promessas e o cultivo foi abandonado. Este exemplo exemplifica o fato de que o empreendedor institucional não deve ser visto como um ator tudo poderoso cujos projetos e visões sempre levam a sucessos e mudanças radicais. Pelo contrário, as experimentações fazem parte do trabalho institucional efetuado pelo empreendedor que tenta encontrar práticas suscetíveis de gerar mudanças progressivas. Neste sentido, o abandono do cultivo do arroz vermelho, em favor de outras culturas como o melão, a melancia e a espirulina, constitui uma estratégia de mercado que tem também consequências em termos institucionais.

 

Para concluir, a expansão tão bem conseguida do modelo de negócios implementado pela Fazenda Tamanduá é um índice claro de mudança socioambiental gerada, aos poucos, por um empreendedor com grande influencia na criação de novos padrões de produção e na evoluição dos hábitos de consumo atuais.

 

*DiMaggio, P. J. (1988). Interest and agency in institutional theory.Institutional patterns and organizations: Culture and environment, 1, 3-22.

 

E você, conhece indivíduos ou organizações brasileiras que poderiam ser definidas como ¨empreendedores institucionais¨?

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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