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O que significa a uberização da economia?

Postado por Cécile Petitgand 10 de abril de 2017 2 Comentários

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Encontra-se cada vez mais na mídia o termo “uberização”, sem que se saiba exatamente o que ele significa. Políticos e colunistas costumam usar esse neologismo para se referir ao movimento de desregulamentação e precarização do trabalho resultando da expansão crescente de plataformas de intermediação de serviços, como a famosa Uber.

Segundo os detratores da uberização, essas plataformas, ao favorecer a proliferação de trabalhadores autônomos – micro-empreendedores sem direitos trabalhistas -, colocariam em risco o sistema de proteção social dos trabalhadores que foi construído ao longo do século 20.

O que pensar dessas críticas? Será que a uberização da economia pode criar alguns efeitos benéficos?

As origens da uberização

O termo “uberização” apareceu em 2014 devido à expansão da start-up americana Uber que permitiu, através de um aplicativo de smartphone, conectar pessoas em busca de um meio de transporte com motoristas autônomos. Hoje o termo ultrapassou o domínio do transporte para atingir outros setores da economia:  o setor da hotelaria e hospedagem por exemplo, com a criação de Airbnb, um site que permite a qualquer pessoa alugar sua casa ou apartamento por uma curta duração, ou ainda o setor financeiro, através da aparição de numerosas plataformas de financiamento coletivo que intermediam a doação de fundos para projetos ou organizações.

O sucesso dessas novas plataformas de intermediação funda-se principalmente nos ganhos da revolução digital: expansão do acesso à Internet, uso crescente de smartphones, numerização dos serviços através da programação de aplicativos. Esses avanços tecnológicos permitiram a qualquer usuário procurar novos recursos na web para solucionar problemas que pode encontrar no seu dia a dia, tais como deslocar-se para outro ponto da cidade, hospedar-se por algumas noites em outra localização, etc. Cada vez que um usuário contrata os serviços oferecidos por um profissional da Internet, a plataforma pede uma comissão, a fim de financiar suas atividades de gestão e intermediação.

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O surgimento das novas start-ups de serviços online gerou muitos debates e conflitos. Na Europa, por exemplo, a oposição dos taxistas à Uber provocou manifestações que chegaram a paralisar algumas cidades como Paris na França. Considerando esses movimentos de resistência, o que pode-se pensar dos efeitos criados pela uberização da economia?

As duas faces da uberização

Para os defensores da uberização, o surgimento de novos professionais no mercado incentiva atores históricos de um setor, como os taxistas, a se renovar, baixando seus preços e/ou melhorando sua oferta de serviços, para enfrentar a nova concorrência. Tais inovações beneficiam finalmente aos consumidores que têm acessos a serviços de qualidade mais elevada e/ou a preços mais em conta. Além disso, segundo os partidários da uberização, as plataformas de intermediação podem até ampliar o tamanho do mercado de serviços, em vez de criar efeitos de substituição. Assim, muitos dos usuários da Uber não costumavam pedir serviços de taxistas no passado; eles representam de fato uma nova categoria de consumidores que permitiram a expansão do setor do transporte na economia.

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Segundo os inimigos da uberização, esse novo movimento cria pelo contrário distorções da concorrência, já que os atores das plataformas de intermediação não são submetidos às mesmas regras que os atores históricos do mercado. Hóteis, por exemplo, devem pagar impostos, além de respeitar várias regulações sanitárias para obter a autorização de acolher hóspedes. Quando uma pessoa aluga sua casa ou apartamento pelo Airbnb, concorrendo diretamente com os hóteis de sua localidade, ela não precisa arcar por essas taxas, nem se conformar com essas normas.

Além disso, os professionais que oferecem seus serviços nas plataformas não são trabalhadores assalariados, mas sim autônomos que beneficiam de nenhum direito trabalhista como seguro-desemprego, décimo terceiro, licença maternidade, etc. Juntam-se ao bolsão de trabalhadores precarizados e terceirizados que já constitui boa parte da mão de obra brasileira.

As plataformas que incarnam hoje o movimento de uberizaçã” criam portanto riquezas, mas contribuem também à desregulamentação do mercado de trabalho. No entanto, fica ainda difícil determinar quais dos efeitos positivos ou negativos resultantes desse movimento têm maior impacto na economia.

Você pode reagir a este artigo! O que acha da uberização? É uma chance ou um desastre para o nosso país? Comente abaixo!

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.
  1. Um incomodo ao sindicato dos taxistas, perdendo seu poder e controle sobre seu monopólio. Acredito que esta mesma visão replica-se para a síndrome da uberização, abrindo novos mercados e diferentes pontos de vistas :)

    • Cécile Petitgand

      Olá Eduardo, concordo plenamente com você, e admito que a uberização da economia pode contribuir em favorecer a concorrência quebrando monopólios e oligópolos. Porém, têm vezes que essa concorrência pode chegar a enfraquecer atores históricos do mercado que não têm tanto poder no mercado. Por exemplo, a uberização hoje estão atingindo as profissões jurídicas e contáveis, devido à chegada de autônomos divulgando seus serviços em plataformas online. Pode-se citar também o caso dos webdesigners amadores que propõem elaborar logos e interfaces a preço de banana… Enfim, essa uberização é uma questão bem complexa!

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