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O perigo da ¨corporatização do social¨

Postado por Cécile Petitgand 6 de outubro de 2015 Deixe um comentário

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Será que estou trazendo aqui mais um conceito vazio e aborrecedor, ou estou falando de um verdadeiro perigo que ameaça as organizações sociais e a sociedade? Numa entrevista recente com uma empreendedora social brasileira, também Presidente de uma OSCIP há 4 anos, ouvi ela me dizer o seguinte, e me deixou pensativa:

¨Agora a gente está vivendo um momento de corporatização do social. Se sustentar, gerar impacto, crescer. Não faço a menor ideia se está certo ou errado, mas tem que se adaptar.¨

O movimento do empreendedorismo social, com seus novos métodos de gestão organizacional, está realmente mudando o modo de se resolver os problemas sociais em nosso país. Porém, esta mudança está realmente acontecendo para o bem?

 

O empreendedor social, novo herói da sociedade contemporânea

A onda dos negócios sociais ou negócios de impacto social chegou no Brasil há pouco mais de cinco anos. Com a criação de incubadoras e aceleradoras de negócios sociais (como a Artemísia), e a fundação de fundos de investimento social, um número crescente de organizações da sociedade civil começou a adotar a apelação de negócios sociais. Muitos gestores de organizações sociais começaram também a se autodenominar empreendedores sociais, devido, entre outras razões, ao ganho de legitimidade atrelado a este conceito. Na verdade, não existe um tipo único de empreendedor social, mas sim vários perfis que correspondem às diversas personalidades dos líderes sociais do mundo atual. No entanto, os discursos encontrados na mídia e nas outras redes de comunicação constroem uma figura estereotipada de empreendedor social, que distorce bastante a realidade, do meu ponto de vista.

A retórica atual apresenta por exemplo o empreendedor social como um verdadeiro herói de mundo social, capaz de fomentar uma transformação radical da realidade através de soluções inovadores e disruptivas. Esta visão egotista, focado na figura de um líder, tende a menosprezar a importância da equipe e dos valores da colaboração e compartilhamento dentro das organizações sociais. Por que o emprendedor social deveria ser um espécie de superhomem ou supermulher do social, tocando todos os assuntos e setores do seu negócio, e orientando-o com visão e inspiração?

Gerir e medir, para quê?

Hoje em dia, as organizações sociais precisam cada vez mais integrar novos métodos de gestão para poderem atrair fundos, doações ou subsídios. A exigência de prestação de contas se tornou também cada vez mais vigente para que as organizações conservem credibilidade frente à sociedade.

De fato, a integração de ferramentas de administração do segundo setor pode ajudar as organizações a trilharem o caminho da sustentabilidade financeira, consolidarem suas ações e ampliarem seus resultados. No entanto, não se pode exigir que todos os dirigentes sociais se tornem gestores profissionais e comecem a administrar sua organização como uma empresa tradicional. Primeiro porque muitos deles não têm essa formação nem essa afinidade pela administração, segundo porque organizações precisam antes de tudo de líderes que se apaixonam pela causa que eles querem servir!

O foco recente nos negócios sociais vem também acompanhado do pedido de medição do impacto social. Uma organização que não tentaria medir o resultado efetivo de suas ações não poderia justificar que está realmente ¨fazendo uma diferença na sociedade¨. Porém, este tipo de discurso esconde o fato de que não existe consenso, nem no Brasil nem fora, sobre a metodologia que se deve usar para medir impacto social corretamente. Muitas vezes, os negócios sociais implementam uma metodologia própria para apresentar o resultado de suas ações, e aquele relatório de impacto social que eles publicam se assimila muito mais a uma linda ação de marketing do que a uma prestação de contas visando a objetividade.

 

Não procuro criticar estas tentativas de medição, nem estes esforços de transparência que em muitos aspectos são louváveis. Queria somente apontar que esta produção de marcos de cientificidade e eficiência nas organizações sociais pode ser tornar uma nuvem de fumaça que possa nos esconder os verdadeiros desafios que elas hoje enfrentam.

De fato, não existe uma boa metodologia para resolver problemas sociais, que são sempre complexos e multidimensionais. Não adianta promover um novo modelo de negócios falando que pode fomentar revoluções, pelo contrário seria melhor procurar responder os pedidos e exigências daqueles líderes sociais que tentam resolver problemas há anos e precisam de nossa atenção (e investimento).

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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