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Investimentos de impacto, fazer o bem para quem?

Postado por Cécile Petitgand 22 de agosto de 2014 Deixe um comentário

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Os investimentos de impacto tem como propósito explícito criar impacto social e beneficiar às comunidades carentes, além de trazer retorno financeiro para os investidores. O entusiasmo dos especialistas financeiros em frente à sua rápida expansão é grande, e poucos são os atores do sistema que questionam publicamente sua eficiência. No entanto, algumas críticas começam a surgir. Morgan Simon, no excelente artigo publicado no site Green Money este mês de agosto, levantou algumas questões extremamente relevantes sobre o futuro dos investimentos de impacto. Embora minha leitura não substitua a leitura de sua publicação original (em inglês), eu apresento abaixo alguns de seus argumentos.

Morgan Simon é diretora do Pi Investments, fundo exclusivamente focado nos investimentos de impacto baseado nos Estados Unidos, além de ser também fundadora da organização sem fins lucrativos chamada Transforme Finance que visa a lançar uma ponte entre investimentos de impacto e capacitação efetiva das comunidades.

A quem beneficia realmente os investimentos de impacto?

Para muitos, o objetivo dos investimentos de impacto é gerar valor social, além de um retorno financeiro equivalente àquele oferecido pelos mercados financeiros tradicionais. Se isso for a verdade, e se os direitos de propriedade das empresas recipientes permanecerem em mãos de privilegiados, então, segundo Morgan Simon, existe pouca chance de os investimentos de impacto participarem no desenvolvimento das comunidades mais carentes.

Na visão atual dos investidores, as populações de baixa renda são consideradas como os clientes das empresas, e não como seus potenciais parceiros ou fornecedores. Raramente são elas que tem o controle sobre os negócios beneficiados pelos investimentos de impacto.

A avaliação do impacto social está sendo feita pelos investidores, não pelas comunidades

O setor dos investimentos de impacto se tornou uma industria ¨de cima para baixo¨ (top-down, em inglês) na qual os critérios de avaliação de impacto e retorno são elaborados pelos investidores, e transmitidos às comunidades por intermédio dos empreendedores.

Pouco espaço é dado à população de baixa renda para expressar suas próprias necessidades e mudar os indicadores de modo a corresponderem com a realidade de sua existência.

Ainda faltam recursos para realmente capacitar as comunidades

Nos últimos anos, apareceram vários programas de capacitação para empreendedores sociais, além de novas oportunidades de financiamento para eles. Porém, ainda são reservados à ¨elite¨ que recebeu uma educação básica e já internalizou o paradigma ocidental de negócio (fundado na elaboração de um plano de negócio, por exemplo).

É preciso implementar novos métodos visando a integração dos modelos de empreendedorismo locais das comunidades a fim de desenvolver programas de formação que possam realmente capacitar os empreendedores que não receberam essa educação tradicional e, por isso, não se condicionaram a esse tipo de pensamento.

Por uma finança transformadora

Melhorar a qualidade de vida das populações de baixa renda exige que as comunidades carentes sejam colocadas no centro dos projetos de financiamento. Para que as bases de uma economia solidária global sejam implementadas, a finança precisa adquirir novos critérios capazes de torná-la transformadora.

A finança transformadora, tal como a vê Morgan Simon, fornece recursos para projetos que engajam as comunidades na condição de tomadores de decisão e atores de mudança, e não apenas como produtores e consumidores. Estas podem implementar novas estruturas e organizações que refletem suas aspirações e defendem suas necessidades, guardando sempre o controle sobre as decisões tomadas e a distribuição dos benefícios. Por fim, as organizações podem ser gerenciadas por um empreendedor social sendo que, neste caso, ele assume o papel de organizador da comunidade em vez de se ver como um diretor executivo. 

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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