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A inovação não é o Santo Graal!

Postado por Cécile Petitgand 11 de março de 2015 Deixe um comentário

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O terceiro setor vê a inovação como o Santo Graal do progresso social e econômico quando, na verdade, não deveria se focar tanto neste instrumento de sucesso, tal é a tese defendida pelos pesquisadores Johanna Mair e Christian Seelos num artigo de 2012 publicado na revista de inovação social da universidade americana de Stanford.

¨Inovation is not the Holy Grail” é o título de um artigo absolutamente esclarecedor onde descobre-se os riscos dos negócios sociais e organizações não governamentais (ONG) buscarem a inovação a qualquer preço.

O que é a inovação social?

Retomando a definição elaborada por Phills et al (2008), pode-se definir a inovação social como ¨o propósito de buscar uma nova solução para um problema social que é mais efetiva, eficiente, sustentável ou justa do que as soluções existentes e para a qual o valor criado atinge principalmente a sociedade como todo e não indivíduos em particular¨.

Ao contrário da inovação tecnológica que visa a geração de lucro econômico pela capacidade de criar novas ideias, produtos e artefatos na organização, a inovação social se volta para a criação de valor social para indivíduos, grupos e comunidades carentes. Sendo não só um resultado (o impacto social), mas também um processo, a inovação social se desenvolve pela participação dos atores beneficiados durante todo o projeto. Para Bignetti (2011), a inovação social é um “processo de construção social, de geração de soluções dependente da trajetória” que se baseia no potencial de transformação dos indivíduos e dos grupos envolvidos.

Inovação: o errado que da certo

O que argumentam Mair e Seelos na revista de Stanford é que considerar a inovação social como um resultado pode levar a um viés de reificação no estudo dos negócios e organizações que visam a criação de valor social. Este viés de análise consiste em buscar a inovação social in situ como se fosse um objeto existindo per se. Vários autores e acadêmicos começaram a elaborar definições do que é inovação e do que não é, esquecendo que antes de tudo a inovação social é um processo de geração de impacto que se desenvolve por etapas, criando a cada momento novas interações e estruturas sociais.

Além disso, considerar a inovação social como um resultado positivo dissimula o fato de que muitas receitas de sucesso implementadas por ONGs e negócios sociais provem de inovações que fracassaram. Organizações qui visam a resolução de problemas sociais intervem em ambientes incertos e às vezes hostis onde é tarefa árdua obter credibilidade e ganhar legitimidade por sua ação.

De fato, as empresas sociais desenvolvem uma aprendizagem completa testando novas ferramentas e experimentando novas soluções para tentar resolver o problema em que se focam. Este aprendizado, feito de erros de juízo e práticas inadequadas, constitui a sabedoria da organização e é fundamental para a construção de seu potencial de inovação.

Recomendações para estudar a inovação

Estou aqui reproduzindo os seis conselhos de Mair e Selos para acadêmicos e praticantes que atuam no campo da inovação. Do meu ponto de vista, estes princípios metodológicos se aplicam também ao estudo dos negócios sociais e das demais organizações do terceiro setor:

  1. Considerar a inovação como um processo, não primeiramente como um resultado;
  2. Considerar a inovação como uma variável independente, e refletir sobre os múltiplos resultados positivos e negativos surgindo durante o processo de inovação;
  3. Reconhecer que os processos de inovação são influenciados por diferentes fatores organizacionais, tanto internos quanto externos;
  4. Entender a prevalência das dimensões cognitivas, normativas e políticas das organizações para determinar como estas podem permitir ou inibir a inovação;
  5. Buscar intuições a partir de inovações bem e mal conseguidas ao longo do tempo;
  6. Refletir mais sobre as diferenças entre os processos de inovação, os fatores influenciadores e os resultados conforme as diferentes culturas e regiões, do que sobre os fatores da inovação em geral.

 

Fontes:

Phills, J. A., Deiglmeier, K., & Miller, D. T. (2008). Rediscovering social innovation. Stanford Social Innovation Review, 6(4), 34-43.

Bignetti, L. P. (2011). As inovações sociais: uma incursão por ideias, tendências e focos de pesquisa. Ciências Sociais Unisinos, 47(1), 3-14.

 

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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