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Entrevista com Rogério Fernandes, fundador do Doa Nota

Postado por Cécile Petitgand 27 de outubro de 2015 2 Comentários

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Doa Nota é um aplicativo desenvolvido por Rogério Fernandes a partir do Lab do Social Good Brasil. O objetivo é automatizar a arrecadação de recurso por meio do programa de Nota Fiscal Paulista para as ONGs. O diferencial é que os usuários (ONGs) não precisam mais digitar a nota, basta tirar uma foto do cupom fiscal e um sistema de inteligência virtual faz o reconhecimento dos dados, valida e integra com Secretaria da Fazenda. Ele torna a captação de cupons 70% mais rápida e segura. Uma solução escalável que garante maior eficiência e possibilita novas formas de arrecadação. O lançamento da versão beta do app é previsto nas próximas semanas!

Confira minha entrevista com Rogério Fernandes, a cabeça do Doa Nota.

Rogério, como te veio a ideia de criar o aplicativo Doa Nota?

Quando cheguei no Social Good, eu tinha um projeto de serviços de TI (Tecnologia de Informação) para ONG. Queria que as ONGs, em vez de passarem horas e horas lidando com essas questões de gestão, pudessem delegar esse trabalho para mim e se focar em sua missão social. Pretendia dar este serviço de graça para elas, mas daí meu negócio não ia se tornar sustentável.

Montei o aplicativo Doa Nota com o intuito de ajudar as ONGs a ganhar mais dinheiro. Hoje 3.000 ONGs em São Paulo estão arrecadando dinheiro a partir de Notas Fiscais, é uma fonte de renda considerável para muitos delas. Mas para isso, as ONGs têm que ir atrás de volúntarios para digitar os dados das Notas. É todo uma logística, e no final sai caro para elas. Com meu aplicativo, basta tirar uma foto da Nota Fiscal, o sistema identifica seus dados e o valor da nota (uns 50 centavos) irá diretamente para a ONG. Destes 50 centavos, pretendo cobrar 5 centavos para poder financiar minha atividade de gestão.

O que te levou a querer empreender socialmente?

Antes do Social Good, não tinha nenhuma noção do que era o empreendedorismo social. Entrei com um projeto que não sabia muito o que era! Depois eu descobri que meu projeto era um negócio social que poderia se tornar extremamente sustentável e gerar impacto social. Atendendo às ONGs, poderia atender muita gente indiretamente, e ajudar quem está disposto em ajudar.

Para mim, um negócio social se encuadra no modelo no Yunus. Não pode ter doação, pode ter investimento mas com retorno zero, os funcionários são pagos com preço do mercado, mais algumas regras. Seu modelo de negócio precisa ser sustentável, senão se perde tempo correndo atrás de dinheiro. Se vê aqueles caras na saída do mêtro tentando arrecadar dinheiro para ONGs, quanto custa um cara daquele? Que impacto aquele cara tem? Não poderia fazer uma coisa mais legal atendendo pessoas?

No Brasil, as ONGs tendem a ter uma péssima reputação por causa dos diversos escândalos. Como você lida com isso?

Quando falo que estou montando um aplicativo para ajudar as ONGs a arrecadar dinheiro, as pessoas me perguntam: ¨E as corruptas?¨  Na verdade, as corruptas não vão precisar do meu aplicativo, já estão lavando dinheiro. Eu brinco que sou EU que estou lavando dinheiro, pego um papel que não tem validade, jogo em um celular e sai dinheiro na ponta!

As ONGs em geral são gerenciadas por pessoas que ganham muito pouco mas têm vontade de fazer acontecer. Trabalham muito por salários pequenos, e muitas têm que se sustentar com outra atividade. No final, a efetividade da ONG é muito pequena e cria pouco impacto.

Acho que tive muito sorte de conhecer o modelo do negócio social. Este modelo pode fazer o Doa Nota se tornar um modelo milionário. Com milhões na conta, aí sim vou fazer milhões de projetos sociais!

Se acha que pode ¨salvar o mundo¨ como alguns empreendedores sociais falam?

Na verdade, não me vejo salvador do mundo, nem acho que alguém possa salvar o mundo! Eu vejo muitos empreendedores sociais buscando uma realização pessoal, querendo dar palestras, etc. Eu prefiro ficar nos bastidores, ajudando as pessoas que ajudam os outros. Meu sonho é aparecer na fila de um café e ver alguém tirando uma fotinha de uma Nota Fiscal. Brinco que quero ser o Candy Crush do mundo social! O pessoal abre o aplicativo e tudo dia quer doar nota e disputar com os amigos para ser o melhor doador.

Me realizaria com isso, não precisaria dar palestras, aparecer na mídia ou ficar famoso. Eu quero que meu projeto ande sozinho e vá para o mundo!

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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