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Entrevista com Mórris Litvak, fundador de MaturiJobs

Postado por Cécile Petitgand 16 de setembro de 2015 Deixe um comentário

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Mórris Litvak é empreendedor social e fundador da plataforma online MaturiJobs. É um novo serviço que irá ajudar pessoas acima de 50 anos a encontrar uma nova ocupação ou recolocação, tanto profissional quanto de forma autônoma.

Tive a grande chance de bater um papo com o Mórris e aproveitei para saber mais sobre o seu negócio social e seu percurso de empreendedor. Veja a nossa discussão aqui:

Como você chegou a querer ser empreendedor social?

Acho que é uma junção de coisas. Tinha uma outra empresa com meu pai, a gente se especializou na concepção de sistemas de reserva online de hotels, crescemos e acabamos vendendo a emprsa em 2012. Ainda fiquei um tempo sócio minoritário, continuei a trabalhar lá, mas a empresa tinha mudado completamente. Começou esta cultura corporativa com muita competição e muita pressão.

Aí resolvi sair de lá. Comecei a ir a eventos, conheci o Impact Hub e achei super legal essa proposta de ter uma empresa, ganhar dinheiro e gerar impacto, fazer uma coisa que ajude a melhorar o mundo e a sociedade. Na empresa que eu estava antes, estava ganhando bem mas estava totalmente infeliz. Sabia que não era o dinheiro que ia ser o suficiente. Precisava ter algo mais.

Mas pensei, vou fazer o quê? Não tenho uma causa assim. Pouco antes disso, tinha feito um trabalho voluntário num asilo, ia lá no final de semana ajudar os idosos a mexer com Internet, computador, ver e-mails, estas coisas. Fiz isso durante um ano mais ou menos, só que depois de sair de lá, ficou na minha cabeça o fato deles terem muita história para contar, muita experiência, e não terem companhia, pessoas para quem passar isso.

É por isso que você acabou criando o Conectando Gerações?

Me inscrevi no Social Good Brasil, no ano passado, com o projeto Conectando Gerações que tinha como intuito organizar conversas entre jovens voluntários e idosos. A ideia do Lab do Social Good Brasil é justamente tirar a ideia do papel, testar, começar a validar, prototipar. Comecei lá o projeto, fiz vários testes, organizei conversas de amigos meus com os idosos via Skype.

Queria que rolassem trocas intergeracionais para os idosos não só terem companhia mas se sentirem também mais incluídos socialmente.

Foi super legal, fiz várias conversas, mas não consegui transformar isso num negócio e monetizar. No começo, a ideia era que os asilos pagassem para este serviço, mas não rolou. Então comecei a falar com empresas que poderiam patrocinar, algumas ficaram interessadas, mas não foi pela frente.

Como nasceu seu negócio atual, o MaturiJobs?

No começo deste ano, fui para um evento sobre envelhecimento e tinha uma senhora lá de 60 e poucos anos que estava super aflita porque falava que não conseguia trabalho, não tinha nenhuma oportunidade. No dia seguinte, comecei a pesquisar sobre este assunto para ver se tinha uma coisa sendo feita no Brasil com relação às pessoas mais velhas conseguirem trabalho. Vi que não tinha nada. Comecei a conversar tanto com estas pessoas quanto com as empresas para ver se contratavam idosos ou não. Vi que realmente não contratam, e que tem muita gente com mais de 50 anos que tem muita dificuldade não só de conseguir mas também de manter emprego. Na crise, são os primeiros a serem cortados.

Coloquei o site do MaturiJobs no ar no começo de junho para ver se realmente as pessoas iam ter interesse em participar disso. Aí me surpreendeu, muita gente queriam saber como funcionava, saiu na mídia, várias pessoas com mais de 50 anos começaram a se cadastrar no site. Agora estou analisando quem está interessado em contratar serviços de pessoas mais velhas. Aqui no Brasil, existe muito preconceito em relação a idade. Me cadastrei num dos maiores sites de emprego brasileiros com um perfil de um idoso de 60 anos. Quando coloquei a idade, apareceu uma caixa: ¨Para os profissionais maduros (acima de 45 anos), sugerimos ocultar a idade¨. O preconceito começa na hora de se cadastrar, é um absurdo! As pessoas me falam que se cadastram em sites e nem recebem contato para fazer entrevista, e elas não sabem nem onde procurar oportunidades. Queria dar oportunidades para essas pessoas, e também ajudá-las a encontrar o que elas têm para oferecer, não só pela sua experiência professional mas também pessoal.

Como você pensa em medir o impacto social do seu negócio?

O que eu quero é melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão nesta faixa etária procurando trabalho e que querem continuar ativas para poder ter renda, para poder ter atividades e interação social. Como a gente mede a qualidade de vida? É complicado. Se eu ajudo a achar emprego, posso medir o número de empregos que vou conseguir ajudar a achar. É uma medição que não vai dar muita resposta porque, às vezes, um emprego não vai gerir qualidade de vida. Estou pesquisando bastante para conseguir achar uma solução que gere um impacto real, não uma coisa só de números.

¨Ajudei 2000 idosos a achar emprego¨, isso não quer dizer nada na minha visão. Pode ser um subemprego que a pessoa fica estressada, ganha pouco, entendeu? Tem que realmente melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Se tem uma ambição de politização para o seu negócio? Se vai querer entrar em contato com o poder público?

Claro! Para muitas ONGs e negócios sociais, o objetivo é que você não precise mais existir porque já tem uma política pública que trate do problema que se tenta resolver. Aí se já vai poder fazer outra coisa. Por exemplo, dizem que o problema da inserção dos idosos no mercado de trabalho só vai ser resolvido quando o poder público criar incentivos para as empresas os contratarem. Assim como têm cotas para deficientes, teriam cotas para idosos. Isso pode ser uma oportunidade para MaturiJobs: se todas as empresas precisam contratar idosos, e não sabem como fazer, elas podem me procurar.

O governo pode também fazer uma coisa que acabe com meu negócio mas que eventualmente vai ser muito bom para o problema. Dificilmente isso vai acontecer porque o governo ainda não está tratando desta questão. Então, agora, eu não quero depender do governo, mas seria ótimo se pudesse depois me juntar a ele para poder dar mais escala a meu negócio!

Confira também a entrevista do Mórris Litvak pelo CO.R Inovação.

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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