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Entrevista com Monyse Almeida, co-fundadora de ALinha

Postado por Cécile Petitgand 14 de outubro de 2015 Deixe um comentário

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Quem pode ficar insensível frente à testemunhos da escravidão moderna? Desde 2011, com o escândalo que revelou a presença de trabalho degradante na cadeia produtiva da Zara, o mercado da moda vem sendo cada vez mais fiscalizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Porém, tais esforços têm suas limitações, novas denúncias de irregularidades mostram que muitas marcas do Fastfashion recorrem ainda a trabalho escravo para criar nossas roupas e assessórios.

Monyse Almeida, formada em Direito do Trabalho pela Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, é co-fundadora de ALinha, plataforma online que favorece o encontro entre oficinas de costura da Grande São Paulo, e estilistas e pequenas marcas em busca de uma mão de obra qualificada que atua em condições de trabalho decentes.

Lhe proponho aqui conhecer um pouco mais sobre o trabalho da Monyse e suas colegas, e se apaixonar pelas primeiras realizações de ALinha!

Monyse, conte-nos um pouco como nasceu ALinha.

As fundadoras de ALinha somos eu e a Dari (Dariele Santos). Eu estudei direito do trabalho e antes de me formar, fui estágiaria no MPT. Lá entrei em contato com a cadeia produtiva de grandes marcas do varejo têxtil. Os trabalhadores, em maioria imigrantes, estavam em condições análogas a escravidão. Enquanto eu vi de perto o caso de uma destas marcas, a Dari estudou em relações internacionais a questão da imigração Brasil-Bolívia.

No ALinha a gente juntou essas duas visões e criamos uma associação em 2014. Hoje somos uma equipe multidisciplicar, tem até gente formada em moda.

Em que consiste o trabalho do ALinha?

ALinha é primeiro um site, mas tem uma grande parte do nosso trabalho que é offline. A plataforma funciona como um jornal de classificados: facilitamos o contato entre quem procurar a mão de obra de uma oficina de costura e quem é uma oficina de costura. Estima-se que só aqui na Grande São Paulo tenha uma média de 12 a 15 mil oficinas. São geralmente pequenos negócios dentro de casa, que juntam moradia com o trabalho, e são bem précárias.

Com a ajuda de nosso parceiro, o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante), já temos mapeado 800 oficinas, e estamos começando a visitar cada uma delas. Quando a gente visita uma oficina, a gente faz um diagnóstico de melhoria. Às vezes precisa-se formalizar, oferecer cursos de formação de preço ou ainda requer o auxílio de um contador ou de uma advogada. A gente tenta acionar proficionais pro bono para ter um preço mais justo e tentar baixar o custo. Cumprido esse plano de melhoria que vem depois do diagnóstico, a oficina começa a ficar visível no site. Lá ela pode ser encontrada por pequenas estilistas que têm uma marca independente e precisam de mão de obra.

Como você decidiu se tornar empreendedora social?

Na verdade eu sempre tive algo em mim que me colocava em empatia com o olhar do outro. O dia que conheci o trabalho de um costureiro que trabalhava em condições horríveis, aquilo foi o estalo. Pensei: ¨Eu preciso intervir aqui¨. Quando estagiava no MPT, entendi as limitações do poder público. No Ministério, fiscaliza-se o ambiente e as condições de trabalho destas oficinas, mas há limitações de se intervir positivamente no problema depois de que são multadas as empresas. Eu queria intervir para completar essas ações.

No conceito de empreendedorismo social, o que me motivou também foi a ideia de construir algo novo. Nada é dado, e se for dado é a perpetuação de vários anos de estruturas machistas, a perpetuação da pobreza. Me motiva essa ideia de romper com o velho e de criar algo com impacto social.

Como você pensa em mensurar o impacto social de ALinha?

A gente o vê em termos de números e situações. Quando a gente melhora as condições de uma oficina, na verdade indiretamente se beneficiam a família ali dentro e as pessoas lá da Bolívia que estão recebendo também esse dinheiro. Acho que o impacto indireto para nós é imensurável, mas é o mais desafiante.

A questão da medição de impacto é algo importante. Se aquilo que se faz não está funcionando, se pode perder o seu real objetivo. Até o final do ano, a gente queria por exemplo ter 20 oficinas ¨ideais¨. Nossas metas são determinantes para ver onde a gente quer caminhar. É muito mais do que para ficar mostrando a um investidor.  Então, a medição do impacto social para a organização é bom para refletir e para fazer andar. Nos lembra o tamanho do problema.

Como você envisaja as relações com o poder público?

Pretendemos realmente influenciar o poder público para que tivesse mais fiscalização das oficinas que já existem. Até agora, as entidades públicas têm certas limitações, inclusive de pessoal para lidar com as condições degradantes de trabalho. Um dia um mentor disse para mim: ¨Você leva boas condições de vivência para as oficinas serem registradas, terem salário e carteira.¨A gente leva o Estado onde ele não consegue chegar.

A gente incentiva geralmente as oficinas a se estruturarem como MEI (Micro-Empreendedor Individual), até pela própria estruturação delas, pois elas são muito pequenas. Mas o que a gente queria é que elas parassem de competir entre elas. Estamos até pensando em organizar com o poder público um polo de produção que seria um agrupamento de oficinas. Elas poderiam pegar encomendas maiores. Isto é um sonho nosso…

O boom do despertar para o tema da escrividão na moda foi em 2013. Mas a gente está ainda engolindo a seco. A nossa bandeira é o trabalho do costureiro, mas se for olhar para o descarte de tecidos, o lixo… aí é outro negócio!

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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