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Encantos e gargalos do turismo comunitário

Postado por Cécile Petitgand 20 de maio de 2016 Deixe um comentário

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Como seu nome indica, o turismo comunitário é uma forma de turismo desenvolvida pelos próprios moradores de uma comunidade. Sendo uma alternativa ao turismo convencional fundamentado em príncipios puramente lucrativos, esta outra forma de turismo, institucionalizada através da apelação Turismo com Base Comunitária, basea-se no desenvolvimento local e sustentável e busca valorizar a cultura e as tradições das comunidades vulneráveis de nosso país.

Durante uma viagem ao Norte do Ceará, tive a oportunidade de me hospedar na comunidade do Coqueirinho, localizada no Município de Fortim, que hoje representa um dos polos da Rede Tucum – Rede Cearense de Turismo Comunitário. O líder da comunidade, Messias, me conduziu pelas lindezas de sua terra e me apresentou tanto as vantagens quanto os principais gargalos do turismo comunitário em sua região.

 

Turismo comunitário: fonte alternativa de renda

turismo-comunitárioA comunidade Coqueirinho do município de Fortim é um assentamento ocupado desde 1995 por famílias associadadas ao Movimento Sem Terra e à Pastoral da Terra. As famílias de agricultores foram auxiliadas primeiro pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma da Terra, e pela organização CARITAS para desenvolver projetos de valorização da terra que permitiram o cultivo de variedades de sequeiros adaptados à escassez de água tais como feijão e mandioca. Mais recentemente foi desenvolvido um sistema de irrigação por mandala que permitiu cultivar várias variedades de frutas e hortaliças.

A crise ambiental destes últimos anos, caracterizada nesta região por invernos cada vez mais secos e demorados, levou a comunidade a buscar fontes alternativas de renda para garantir sua sobrevivência. Alguns anos atrás, os membros do Coqueirinho decidiram construir um pequeno complexo de chalés, além de um restaurante e um café, a fim de acolher turistas interessados em descobrirem as riquezas escondidas do litoral cearense e as práticas agroecológicas da região. Foi firmada uma parceria com uma ONG italiana para organizar intercambios e visitas recorrentes de estrangeiros na comunidade. Um passeio ecológico foi também montado para permitir aos turistas explorarem a fauna e flora cercando a comunidade do Coqueirinho.

 

Os gargalos do turismo comunitário

Com a crise europeia, o número de turistas estrangeiros foi decrescendo na comunidade, de tal modo que os integrantes do Coqueirinho buscaram atrair outros visitantes como estudantes de faculdade de turismo, alunos escolares e outros exploradores do turismo sustentável. No entanto, estes turistas ainda não estão em número suficiente para fazer do turismo comunitário uma fonte de renda consolidada para os membros da comunidade.

tucum-rede-turismo-comunitarioQuando falei com o Messias, ele apontou a falta de comunicação e divulgação para explicar o baixo número de visitantes. De fato, o Coqueirinho não recebe sinal da Internet e as redes de telefone móvel ficam aí muito instáveis, o que deixa a comunicação entre a comunidade e o mundo exterior bastante precária. De fato, a maior parte das visitas vem do boca a boca e de recomendações encaminhadas pela Rede Tucum da qual o Coqueirinho faz parte.

A falta de investimento público nas infrastruturas também representa uns dos principais gargalos apontados pelo Messias. Por exemplo, o caminho da rodovia principal para a comunidade ainda não está asfaltado, o que contribui em aumentar o seu isolamento geográfico. Como explicar que o Munícipio persiste em negar ajuda à uma comunidade que tem tantas riquezas para oferecer?

Finalmente, a questão ambiental está ficando cada vez mais preocupante na região do Coqueirinho. Este ano, a comunidade só conheceu 5 dias de chuva, o que deixou as reservas de água subterrânea em estado extremamente crítico.

Hoje é imprescíndivel gerir um despertar cidadão em todas as populações que moram ao redor da comunidade para que se faça um uso consciente dos recursos naturais em vez de depleti-los sem preocupação pelo futuro. No Coqueirinho, cada membro tem consciência do valor da água, verdadeiro ouro azul, porém os empreendimentos de turismo convencional que ficam à beira do mar ainda estão imersos num sistema de acumulação capitalista e exploração ambiental que não parece ter hora marcada para recuar.

Se você se interessar pela descoberta das comunidades do litoral Cearense e pelas suas riquezas, entre em contato com a Rede Tucum.

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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