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Construir mercados inclusivos para combater a pobreza

Postado por Cécile Petitgand 9 de março de 2015 Deixe um comentário

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Vários acadêmicos atuando no campo da teoria institucionalista utilizam o conceito de ‘vácuo institucional’ para caracterizar espaços isentos de instituições que facilitam o funcionamento do mercado, visto como um espaço de intercâmbio de bens e serviços. Estes vácuos institucionais não são lugares de não-existência de instituições e normas regulatórias. Pelo contrário, são espaços dinâmicos onde regras, normas e leis constrangem o acesso de indivíduos ao mercado de bens e serviços e facilitam a emergência de situações de miséria e marginalização.

Neste sentido, construir mercados inclusivos é imprescindível para combater a pobreza que é diretamente derivada da exclusão destes espaços de oportunidade e de empoderamento individual e coletivo.

 

Espaços de vácuo institucional

No Bangladesh, inúmeros são os obstáculos de origem social, política ou religiosa que dificultam o acesso das mulheres à vida política, comunitária e econômica. A pesar das ações de empoderamento das ONGs como a famosa BRAC, a metade da população do Bangladesh vive abaixo da linha da pobreza; as mulheres ainda constituem a maioria da categoria dos ‘ultra pobres‘ – termo usado pela BRAC para designar as pessoas mais excluídas da vida social e econômica no país.

No estudo conduzido por J. Mair, I. Martí e M. Ventresca (2012)* sobre as atividades da BRAC no Bangladesh, os autores ressaltam os vários elementos que proíbem a participação das mulheres à vida da comunidade. Como pode-se ver na imagem abaixo, extraída do artigo citado, são três esferas, social e comunitária, política e religiosa, que produzem regras e normas que limitam o acesso das mulheres ao mercado.

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Mulheres no Bangladesh são socializadas para ser dependentes’, escrevem os autores do artigo. Tal expressão resume, do meu ponto de vista, o conjunto de obstáculos que restringem seu acesso ao mercado e criam situações de exclusão e intensa miséria.

O que significa construir mercados inclusivos?

No Bangladesh, a BRAC está construindo novos espaços de diálogo onde as mulheres podem se sentir a vontade para expressar seus problemas e quebrar as relações de dominação que as enfraquecem no dia-a-dia. As Organizações de Aldeia (Village Organizations ou VO, em inglês) são grupos de 35 a 50 mulheres que organizam encontros e discussões liderados pelas próprias mulheres do campo. A BRAC também trabalha com as elites locais e líderes religiosos para implicá-los no processo de empoderamento e lhes lembrar o seu dever de cuidar dos elementos mais frágeis da comunidade – o cuidado pelos pobres sendo um dos cinco pilares da Islã.

A ONG também implementou um programa educativo para as mulheres que não tiveram a oportunidade de completar o ensino elementar. A ideia central é que a alfabetização permite às mulheres acessar serviços de saúde e espaços de trabalho que lhes ajudam a libertar-se da dominação social e econômica que constringe aquelas que não sabem ler ou escrever.

A organização desenvolveu muitos outros programas sociais para aliviar a pobreza no país. Todas suas ações são orientadas segundo a seguinte filosofia, inspirada dos escritos do pensador e pedagogo brasileiro Paulo Freire: permitir a conscientização e a auto-reflexão das mulheres sobre sua condição a fim de promover sua autonomia e auto-suficiência. Vislumbrando novas oportunidades e novos caminhos de vida, as mulheres podem assim mobilizar os recursos do seu ambiente e aliá-los aos seus conhecimentos para afirmar seus direitos e realizar seus planos de vida.

 

Para concluir, a construção de mercados inclusivos implica de modificar as normas, crenças e práticas existentes a fim de alterar a ordem social. A participação ao mercado é sempre negociável e as suas fronteiras permanecem sempre porosas para aqueles que foram excluídos ao princípio. Vencer os obstáculos que proíbem seu acesso requer esforços, porém o exemplo da BRAC no Bangladesh nos ensina que, proporcionando conhecimento e autonomia para os marginalizados, consegue-se aos poucos derrubar as barreiras que limitavam o acesso dos pobres a uma vida realmente digna.

*Mair, J., Marti, I., & Ventresca, M. (2011). Building inclusive markets in rural Bangladesh: How intermediaries work institutional voids. Academy of Management Journal, amj-2010.

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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