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Como definir o empreendedorismo social?

Postado por Cécile Petitgand 27 de março de 2015 Deixe um comentário

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O empreendedorismo social se tornou um campo de estudos acadêmicos há mais de três décadas. Malgrado a crescente popularidade deste tema, ainda não existe nenhum consenso entre os atores sobre o significado do empreendedorismo social ; várias definições hoje prevalecem, fazendo deste conceito um objeto de competição semântica e de concorrência metodológica.

Neste post, eu me baseio na análise feita por Nia Choi e Satyajit Majumdar* do conceito contestado de empreendedorismo social, publicada em 2013 no Journal of Business Venturing, a fim de elucidar a natureza deste conceito e apresentar os sub-temas essenciais que o mesmo abrenge.

Definições do empreendedorismo social

Numerosos são os estudos acadêmicos que apontam a falta de clareza do conceito de empreendedorismo social. Em verdade, pesquisadores e outros atores do campo não concordam sobre uma definição única: para alguns teoristas, o empreendedorismo social refere-se à busca das organizações sem fins lucrativos por novas estratégias de financiamento através de atividades de cunho comercial. Outros vêem o empreendedorismo social como a criação de novos negócios com o intuito de  satisfazer as necessidades dos mais pobres, ou também como o uso de inovações sociais para trazer mudanças sociais, que podem envolver ou não a comercialização de produtos ou serviços.

A existência de várias definições para um mesmo conceito traduz a sua complexidade interna e multidimensionalidade. De fato, o empreendedorismo social remete a várias realidades, objetivos e formas organizacionais, de tal modo que é impossível e vão procurar uma definição única para este conceito.

Os 5 componentes do empreendedorismo social

Para melhor elucidar a complexidade do empreendedorismo social, Choi e Majumdar sugerem que o conceito pode ser considerado como um cluster ou conglomerado de vários sub-conceitos que são identificados como:

A criação de valor social: é um pré-requisito do empreendedorismo social, sendo que sem criação de valor social, não existe negócio ou empresa social. Os estudos que se focam neste aspecto do empreendedorismo social apontam pela dificuldade de definir e medir a criação de valor social por estas organizações. O problema também é determinar quais empresas e organizações podem ser consideradas como criadoras de valor social.

O empreendedor social: foi considerado um elemento central do empreendedorismo social, já que a figura do empreendedor social está à origem da inovação social e das mudanças que a acompanham. Pesquisadores não concordam, porém, sobre as características exatas do empreendedor social: será que ele é tão visionário e inovador como alguns o representam?

– A empresa ou negócio social: pode pertencer ao setor privador, público ou ao Terceiro setor e atuar em setores muito diferentes. Pode ser também lucrativa, sem fins lucrativos ou híbrida. Esta variedade de formas e estruturas organizacionais contribui para a complexidade do conceito de empreendedorismo social.

A orientação mercantil: este aspecto do empreendedorismo social está associado com a ideia de aumento da eficiência de uma organização através da introdução de atividades comerciais. Um critério essencial que diferencia por exemplo o empreendedorismo social de um serviço tradicional performado por uma ONG é o foco no uso eficiente dos recursos disponíveis.

A inovação social: este último sub-conceito está geralmente associado com a ideia de mudança social. Neste sentido, os empreendedores sociais são vistos como agentes de mudança que implementam inovações sociais para resolver problemas que as iniciativas tradicionais não conseguiram solucionar.

Este sub-conceitos podem ser considerados como caraterísticas do empreendedorismo social, de tal modo que cada tentativa de definição do empreendedorismo social deve incluir pelos menos um destes sub-conceitos. À exceção do sub-conceito de ¨criação de valor social¨que constitui uma condição necessária para a existência do empreendedorismo social, não existe um numero exato de sub-conceitos que uma definição do conceito deve conter para ser considerada válida.

Em face à prática

Na hora de determinar se uma empresa é um negócio social ou tradicional, a análise exposta acima pode encontrar suas próprias limitações. De fato, se várias características permitem definir o empreendedorismo social, quantos critérios deve seguir uma empresa para ser verdadeiramente social e não simplesmente socialmente responsável? Será que a inovação social, como a criação de valor social, constitui também um critério imprescindível para definir um negócio social? Do meu ponto de vista, muitas outras perguntas surgem na prática quando encontramo-nos na situação de ter de caracterizar um negócio em particular.

Por exemplo, durante a minha visita da Fazenda Tamanduá que fica no nordeste paraibano, eu percebi que, a pesar de ter sido considerada um negócio social pela iniciativa Brasil 27, esta organização não pode ser definida como uma empresa social. A missão de inclusão social e de desenvolvimento sustentável desta fazenda biodinâmica não representa o seu objetivo central, pelo contrário, o impacto social gerado por ela é efeito decorrente das suas atividades e nunca constituiu uma motivação para empreender e se desenvolver. Segundo a visão de Choi e Majumdar, o critério do valor social poderia definir esta empresa como um negócio social, porém, mesmo que a Fazenda Tamanduá crie valor social, esta geração não é a prioridade da empresa e nem orienta suas estratégias no mercado.

*Choi, N., & Majumdar, S. (2014). Social entrepreneurship as an essentially contested concept: Opening a new avenue for systematic future research.Journal of Business Venturing, 29(3), 363-376.

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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