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A delicada questão da profissionalização do terceiro setor

Postado por Cécile Petitgand 27 de agosto de 2015 Deixe um comentário

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De acordo com muitos profissionais e acadêmicos, a profissionalização do terceiro setor seria um processo fundamental para garantir a eficiência dos projetos sociais desenvolvidos pelas organizações que nele atuam. Desta forma, a adoção de novas técnicas e métodos de gerenciamento constituiria um requisito essencial para a perenidade destas organizações devido ao melhor uso dos seus recursos humanos e financeiros.

A profissionalização diz respeito ao processo de gestão que abarca desde a definição do posicionamento estratégico da organização até a avaliação de impacto dos projetos sociais implementados. Neste artigo, tentarei primeiro apresentar em que consiste este processo de professionalização dentro das organizações do terceiro setor, tais como as ONGs. Também irei ressaltar os prós e cons da profissionalização para sublinhar os possíveis problemas surgindo da aplicação de modelos empresariais tradicionais nestas organizações.

Profissionalização do terceiro setor, do que falamos?

A profissionalização é um processo que diz respeito à especialização, ao planejamento e à forma de trabalho de uma organização baseada em técnicas de administração.

Na década de 1990, ocorreu no Brasil um fluxo intenso de profissionalização no terceiro setor. Essa demanda veio com o interesse de especialização e com a visão de melhorar os vínculos de informação para que as ONGs tivessem mais oportunidades de financiamento.

A administração surgiu como área de conhecimento portadora de soluções para os problemas do terceiro setor. Temas de administração – planejamento, gestão de projetos, marketing, finanças, auditoria, liderança, motivação – antes restritos apenas ao mundo empresarial ou à administração pública, tornaram-se comuns entre as organizações do terceiro setor.

Segundo Falconer (1999), ¨a idéia de que a eficiência e a eficácia de resultados constituem o principal desafio das organizações da sociedade civil é fundamentalmente diferente do que se via em um passado recente, quando a mera existência de uma organização ou a validade da causa defendida por esta seriam apontados, freqüentemente, como suficientes para justificar uma doação de recursos a fundo perdido, sem maiores exigências quanto aos resultados a serem alcançados com o emprego destes. No cenário atual, as grandes disputas do terceiro setor no campo ideológico e político parecem arrefecer. Agora, na discussão sobre os fins das organizações, a Administração adquire maior importância com a adoção do discurso empresarial de resultados

Prós e cons da professionalização do terceiro setor

Os advogados da professionalização ressaltam que as organizações do terceiro setor que não investem em processos de profissionalização enfrentam dificuldades tanto para desenvolverem suas próprias ações quanto para se candidatarem a novos financiamentos, ficando desta forma, fadadas a falência e presas em um ciclo vicioso. Apenas para participar de algumas concorrências internacionais e/ou nacionais para captação de recursos é exigido um alto nível de organização, burocracia, e de conhecimento de técnicas de gerenciamento de projetos, que impede um número infindável de organizações, de participar destes concursos e logo de ter acesso a este tipo de financiamento.

O risco porém é que este processo de aprimoramento das técnicas e metodologias de gestão do terceiro setor pudesse “colonizar” a ação social da organização pelos princípios, lógicas e metodologias de gestão originários do setor privado, sob pena da extinção da autonomia das organizações da sociedade civil. Poderia também colocar em cheque sua capacidade de constituírem-se como produtoras de sujeitos capazes de lutas políticas emancipatórias.

Outro fator importante a considerar é a inexistência de uma postura de consenso acerca de quais ferramentas e métodos de gestão seriam os mais apropriados para o sucesso dos projetos executados por essas organizações. O único consenso é que não podemos simplesmente transpor técnicas gerenciais das organizações privadas para as organizações do Terceiro Setor, sem antes alinhá-las às expectativas e características próprias destas organizações e do processo de gestão social.

Referência:

Falconer, A. P. (1999). A promessa do terceiro setor: um estudo sobre a construção do papel das organizações sem fins lucrativos e do seu campo de gestão (Doctoral dissertation, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.).

Sobre Cécile Petitgand

Cécile Petitgand
Doutoranda em administração na Universidade Paris-Dauphine e na USP, sou apaixonada pelas inovações desenvolvidas pelas organizações que pretendem usar os mecanismos de mercado para resolver grandes problemas sociais e ambientais. Acredito no poder de mudança do empreendedorismo e no grande potencial das novas redes de comunicação.

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